sábado, 18 de fevereiro de 2017

# Textos curtos

A chuva e os meus sentidos



               Você viveu dias em que o vento frio batia sobre sua pele e te fazia correr para cima do colchão e enrolar-se com os cobertores ou lençóis? Eu também. Confesso que não sabia o que era a Internet, porém, a televisão incentivava-me a pegar mesinhas de madeira e cadeiras infantis de plástico e levar toda a bagunça para a calçada da rua. Lá eu imaginava um jornal exclusivo, e de alto nível, onde eu imitava grandes profissionais da área jornalística.
                Em outros momentos, desejei ser cantora (mesmo minha voz não sendo uma das mais bonitas) e sair pelo mundo animando a plateia enquanto eu mantinha uma performance desajeitada em cima do “palco”. – Lembro de ter compartilhado comigo mesma as tantas vezes em que imaginei-me fazendo Medicina Veterinária. Os animais sempre foram uma fonte de amor para mim, algo quente o bastante para ocupar minha mente de criança.
                Quando pequena acostumei-me com o as paisagens cinzentas do Sul; com o lugarzinho frio do colchão que esperava-me para esquentá-lo enquanto assistia os desenhos matutinos. Quando os pais trocavam os horários das aulas para o período da tarde, mesmo assim, o cantinho ainda me esperava. E a chuva? A chuva começava e não tinha fim, pelo menos era o que parecia. Ela vinha com força e carinho sobre diversos lugares mas, para mim, ela sempre foi algo diferente; tem algo a mais.
                Não sei se sempre fui desatenta, desajeitada e morava no mundo da lua, entendo apenas que os sonhos nunca deixaram de fazer parte da minha vida. A intensidade é boa desde que seja acompanhada de equilíbrio, eu sei, já me falaram isso. – Eu só queria sentir a chuva, imaginar coisas grandes em um momento que para os adultos é tão comum e natural. Meu olhar “infantil”, como muitos pensam, ainda consegue captar a marca d’agua entre cada nuvem carregada, as formiguinhas caminhando sobre a terra molhada e as pequenas esperanças voando por aí.
                Já desejei saber o porquê de tanta sensibilidade e sonhos, porém, entendi que essa é a minha essência, esperar sempre mais, imaginar as coisas com naturalidade enquanto a chuva cai como se todas as minhas visões de criança ainda fossem as mesmas. Enquanto os adultos se preocupam com as burocracias de uma vida complicada, eu prefiro olhar para cada coisa como um brinquedo novo que pode me render grandes sorrisos e novas descobertas. Sim, eu ainda sinto vontade de desmontar as coisas para saber o que tem dentro e até arrancar as folhas de um caderno antigo para criar um novo.
                Eu quero ser pura, manter um relacionamento cheio de segredos com Jesus; olhá-lo com amor enquanto estou fazendo minhas orações e ouvir sua voz pedindo-me para contar o que estou sentindo. Sentar no chão, cruzar as pernas e, simplesmente, preparar um lugar para Ele sentar enquanto me aconselha e mexe em meus cabelos pedindo para que eu tenha calma nos momentos em que meu coração estiver agitado. E, nas circunstâncias em que eu só tenha que agradecer, seu colo também será meu lugar. Suas mãos ainda estarão balançando as minhas enquanto corremos pelo jardim que Ele mesmo preparou para mim; para nossos encontros diários.
                Eu só quero ser sincera como uma criancinha.
                Quero ser amável.
                Quero ser apenas o que Jesus quer que eu seja: dependente Dele.