segunda-feira, 27 de março de 2017

# Textos curtos

A relatividade da beleza, por Isaac Bibiano



     A beleza está mesmo no olhos de quem vê? E se quem estiver olhando não vir beleza alguma? Construídos para pensar que apenas o belo se aproveita, perdemos um tanto de coisas que podem ser maravilhosas, mas que em sua não aceitável aparência nos leva à negação. Moldados por um sistema superficial, desde que o mundo é mundo, onde o exterior e o aparentemente proveitoso é o que vale, caminhamos para tudo o que é passageiro e deixamos escorrer por entre os dedos o que precisa ser descoberto, cavado, como se faz com um tesouro... E se alguém amar demais, isso não supera o seu rosto desfigurado? E se a sabedoria for forte, isso não é mais que uma boa carapaça? E se o poeta for um mendigo, a sua poesia é menos valorosa? Um dia, um velho amigo me disse para que antes de tudo, eu olhasse o interior. Eu o fiz, e vi que havia muita coisa não vista, coisas novas, coisas mais bonitas que as do lado de fora. Eu aprendi, e ainda aprendo, que preciso olhar além, mesmo aquilo que não tem aparência, ou formosura, como uma raiz na terra seca, como tudo o que nos pode ser feio, as coisas para as quais fechamos os olhos, escondemos o rosto e, delas, não fazemos caso algum. O velho amigo também me disse "olhe, e não se espante, de uma terra pequena e longínqua, em cima de uma besta da terra, vem alguém com um tesouro escondido, uma pérola de grande valor. Mas para compreender isso, é preciso ver além, é preciso cavar bem onde a cruz, em cima da terra, marca o lugar. É onde a beleza está travestida de horror, a bênção de maldição e, a morte, de vida. Ali, o rio cruza a cidade, e as águas vivas estão disponíveis. É só beber."